
“[As mulheres] elogiam os bons rapazes, mas reservam-nos para as amigas.
Acham mais graça aos outros, não resistem à tentação de os domesticar.”
Júlio Machado Vaz in O Tempo dos Espelhos

“[As mulheres] elogiam os bons rapazes, mas reservam-nos para as amigas.
Acham mais graça aos outros, não resistem à tentação de os domesticar.”
Júlio Machado Vaz in O Tempo dos Espelhos

“O pai João telefonou. Esteve na Alemanha e foi o melhor numa entrevista de selecção, mas não obteve o lugar por ser «pouco agressivo e tímido». Que mundo te deixo? Interessa menos o que se é e mais o que se parece, a nossa imagem ganha-nos em importância.”
Júlio Machado Vaz in O Tempo dos Espelhos





Para esta semana:
O Tempo dos Espelhos
Júlio Machado Vaz
(Texto Editora)

Nesta autobiografia, Júlio Machado Vaz retrata-se tal como se vê ao espelho, de forma dura, sem rodeios, sem falsas cerimónias. A duas vozes. A sua própria voz, qual narrador que nos vai contando a sua vida; e a voz da sua consciência, autocrítica, que vai escrutinando todos os sentimentos, descobrindo segundas intenções, traumas de infância e medos escondidos. Ao longo do livro, vamos descobrindo que o psiquiatra é, no fundo, um sentimental hipocondríaco. A obra, escrita após um grave problema de saúde do seu autor, é um legado e uma homenagem a toda a família Machado Vaz e tem o seu próprio ritmo. Um ritmo pautado pelos sonhos, pelas angústias, pelos medos, pelos sucessos e pelos fracassos, pelas certezas mas, sobretudo pelas incertezas da vida. Recomendo vivamente. Deixo um excerto a juntar a outros, já anteriormente aqui publicados:
"Chegaram as análises. Atrasei-as um mês, invadido por um pressentimento sombrio. Depois, a fé supersticiosa do hipocondríaco levou a melhor e estendi o braço à agulha, odiada desde infância. É habitual os psis vestiram a hipocondria com as roupas negras e longas da depressão a fazerem lembrar os vestidos severos das divas do fado. Estou de acordo – muitas vezes, o questionar obsessivo do corpo esconde a tristeza funda e solitária. Impede o voo além da própria sombra, quanto mais o pousar nos braços de outros! E contudo, a hipocondria pode ceder face a paixão alucinada ou tragédia real. Como se amor e drama lhe roubassem a energia necessária para a sua interminável busca."

"Os objectivos eram a curto prazo: gelados, férias, caprichos em geral e rabo a salvo em particular. (…) Também não houve projecto de realce na puberdade, a primeira profissão a despertar o seu interesse foi a de varredor da câmara, por desejar sair à noite. (…) Mas na adolescência quem não sonha com impossíveis ou faz planos meticulosos e concretos vai parar por mau caminho. E que desejava então Sua Excelência? O que hoje descreve aos clientes como megalómeno – “apenas” ser feliz. Sem ponto de referência, etapas e cronologia – ser feliz e pronto. Podem imaginar o que aconteceu. Refugiado nesta visão messiânica do futuro, não menos protegido pelas saias de mãe e avó, desembocou numa equação simplista e trágica: a felicidade chega pela mão das mulheres. A moral materna, o Porto burguês dos anos 60 e a ideologia do amor romântico fizeram o resto. Ou seja: reduziram-no a um zombie à espera da mulher da sua vida."
Júlio Machado Vaz in O Tempo dos Espelhos

“O que sonhou então a nível profissional? Nada. Incrédulos? Eu repito com mais ênfase: rigorosamente nada. Traída que foi a queda para a História, por cedência a chantagem bem intencionada da mãe, deixou-se levar pelos acontecimentos e nunca perdeu muito tempo a imaginar vida para além dos exames. Querem um exemplo típico de apatia “bem sucedida”? No quinto ano de Medicina percebera que as enfermarias o horrorizavam e o ensino surgia-lhe como a única solução. Porque a média assim o permitia, falou com o professor de determinada disciplina. Ah, a Universidade Portuguesa, em que a tradição ainda era – e é... – o que era! O lugar de monitor estava “reservado”. Mas o velho professor gostava dele e sentiu-se culpado, telefonou a outro catedrático e perguntou-lhe se o aceitaria na equipa. Ao que a voz do outro lado do fio respondeu “com todo o prazer, mande-o cá”. (…) Em dez minutos passou de candidato ao ensino de uma disciplina, a docente de outra! Maleabilidade intelectual? Também, afinal foi um monitor razoável durante vários anos. Mas um laissez faire, laissez changez que denunciava a total ausência de rumo definido. A psiquiatria não foi uma vocação, mas um enorme suspiro de alívio – desistira da História dos povos e tropeçou nas histórias das pessoas. Não foi ele a chegar lá, depois de um caminho percorrido, mas a Psiquiatria a resgatá-lo da corrente sem destino que o arrastava.”
Júlio Machado Vaz in O Tempo dos Espelhos